terça-feira, 13 de junho de 2017

A POLÊMICA DO SÃO JOÃO DE CAMPINA GRANDE



Foto: Google Imagens




A festa mais esperada do ano para os nordestinos é agora. Sou Campinense e com tal adoro essa época que une as tradições de nossa terra com nossa herança europeia. É um período de alegria, comemorações,  comidas típicas, danças tradicionais e de nossa música maior, o FORRÓ.


Este ano não pude viajar para o São João de Campina Grande e em vez de sentir aquele misto de saudade e nostalgia, me senti aliviada. Digo isso porque seria muito difícil pra mim ir ao Parque do Povo e não ver Biliu de Campina, Antonio Barros e Ceceu, Zé Ramalho, Flávio José, Trio Nordestino, Alcimar Monteiro, Sirano e Sirino, Tom Oliveira, Santana, Os três do Nordeste, a palhoça de forró pé-de-serra, as barracas de bebidas e comidas típicas, onde nossa cultura é brindada e apreciada sem restrições nem imposições. 


Dói saber que uma festa que nasceu nas comemorações familiares de bairros e que se tornou numa apoteose de repercussão internacional está sendo tomada apenas como indústria cultural de massa. Estão simplesmente aproveitando a importância de uma festividade para o lucro e descaracterizando aquilo que é nosso. Conversei com minha irmã, que mora em Campina, e ela me contou da indignação da população em relação a programação do evento, a imposição as barracas que tiveram limitação de marcas de bebidas, local de compra de mercadorias e limitação até de menus nos restaurantes da festa. E se não bastasse até os casamentos celebrados no evento não tinham mais autorização para fotografias.  


Digo isso porque o São João de Campina é celebrado há vários anos no Parque do Povo e como o próprio nome diz é um espaço de festividade do POVO, por isso a festa sempre foi gratuita. Mas este ano a proposta era diferente, a ideia era trazer músicos que estão na mídia nacional, aumentar a área vip e fazer do evento do POVO uma festa privada, seletiva e extremamente lucrativa. E isso só não aconteceu porque alguns vereadores e pessoas influentes de Campina não permitiram. 


Quando Elba Ramalho, que canta no nosso São João, chama a atenção para uma descaracterização da nossa festa ela é vista pela mídia do sudeste como uma pessoa enciumada e que está querendo levantar muros entre estilos musicais, mas o que a mídia não fez foi ir a fundo para entender o por quê de Elba questionar a presença maciça dos sertanejos no São João de Campina. Elba é uma cantora consagrada e não precisa de intrigas para aparecer na mídia, o que Elba fez foi atentar para o risco que a tradição do São João está sofrendo com esse desequilíbrio na programação do evento.


Os sertanejos já participam das festividades juninas há muitos anos, mas de uma forma limitada até porque o São João é a oportunidade para os músicos da região exporem seus trabalhos  com igualdade. É a hora de Dejinha de Monteiro subir no mesmo palco de Zé Ramalho e mostrar seu talento. É a hora da nova geração ver uma apresentação de Biliu de Campina e entrar em contato com uma cultura muito rica que foi nacionalmente apresentada ao Brasil por Jackson do Pandeiro. É a hora dos novos forrozeiros mostrarem seu valor e isso não impede que haja um diálogo com outros estilos musicais. Mas o que não dá é para aceitar é um São João onde 50% das atrações não são forró tradição. Fazer isso é suplantar a historia de um povo.


A discussão não é se Marília Mendonça é uma cantora talentosa porque talento não se discute se reconhece e ela merece o espaço que vem conquistando, mas  quando Elba se refere a festa de Peão de Barretos, que valoriza a música sertaneja com todo direito e propriedade, ela está dizendo que assim como eles nós, campinenses, devemos valorizar e enfatizar a nossa identidade, não por um bairrismo tolo,  mas para preservação de uma cultura para as novas gerações. 


A revolta de Alcimar Monteiro é apenas o reflexo da tristeza dos Trios de Forró-Pé-De-Serra da região, que tem no São João de Campina e de regiões circunvizinhas a oportunidade de trabalhar. Diferentemente da maioria das discussões sobre a polêmica essa é uma questão muito além dos estilos musicais, trata-se de uma questão política, social, cultural e econômica que deveria ser debatida de forma ampla por se tratar da banalização de uma festa local tradicional e não da segregação de estilos musicais.


Mas se depois de tudo que foi exposto existir alguma dúvida então convido a você leitor que imagine a Festa do Boi de Parentins sem as bandas locais, sem Fafá de Belém, ou quem sabe o Carnaval Carioca sem as bandas de marchinha e cheio de trios elétricos tocando sertanejo, ou sofrência. O que mais me dói em toda essa incoerência cultural é saber que o parque do Povo seguirá lotado porque assim como a cegueira política e moral que vivemos também estamos vivenciando um processo de “catarata” cultural.


Assim sendo, só me resta deixar meus cumprimentos e orações a todos os tocares de sanfona, trios de forró, cantores locais, cantadores de coco, repentistas e a todos os forrozeiros do meu nordeste  a minha súplica para que a nossa herança cultural não seja banalizada e para que as futuras gerações possam sentir o coração pulsar ,com imenso fervor, ao ouvir a abertura do São João de Campina quando um cantor local começar a declamar “Olha pro céu meu amor. Vê como ele está lindo. Olha pra aquele balão multicor como no céu vai subindo...”


Por L. Gonçalo.

OBS: A todos aqueles que não concordam com minha posição deixo o meu respeito ao seu direito de discordar assim como asseguro meu direito de me posicionar contra ou a favor da questão.

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